3 de Julho de 2009

De um final feliz e um arquivo que não pode ficar morto

Quando José Carlos da Conceição, 26 anos, deixou a cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, há um ano, para vir ao Recife, ele não imaginava que passaria por dificuldades que o fariam tentar contra a própria vida. Em uma manhã de junho, José Carlos subiu em uma torre de telefonia e ameaçou pular. A tentativa de suicídio mudou a rotina na Avenida Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes. Moradores e passantes disseram que José Carlos subiu às 8h e então anunciou suas intenções. Polícia e bombeiros foram acionados. Foi preciso mais de duas horas de conversa, com a ajuda de um pastor evangélico, para convencer José Carlos a descer.

Como acontece em qualquer "evento" de meio de rua, curiosos interromperam afazeres para acompanhar o drama, se acotovelando para chegar o mais perto possível do "olho do furacão". A situação-limite se explica pelos descaminhos percorridos por José Carlos.

Em um ano, o rapaz baiano que veio a Pernambuco procurar por trabalho, foi assaltado, ficou sem dinheiro, sem documentos, passou fome, levou facada, fez cirurgia, dormiu na rua, virou pedinte. Os percalços o levaram ao desespero. Sem ter como contactar a família, já sem esperança de voltar à sua cidade, José Carlos decidiu pelo suicídio.

À polícia e ao pastor José Alencar Lopes, José Carlos relatou sua história. "Aconteceu com ele, o que acontece com muitos jovens: não consegue trabalho, nem comida, e acaba se envolvendo com bebida e confusões. Não aparece quem lhe dê a mão, apenas que lhe mostre o mal. Ele estava sem esperança, faminto há vários dias", disse o pastor. Segundo o religioso, o rapaz contou que há alguns dias se envolveu em briga em um bar, onde levou a facada.

José Carlos passou por cirurgia, em um hospital público do Recife.Ainda carregava na barriga a cicatriz recente. Depois de receber alta, ficou vagando pela cidade. Acabou chegando ao Terminal Integrado de
Passageiros (TIP), a rodoviária, lugar de partidas e chegadas. Aos viajantes, pedia, em vão, ajuda para voltar à sua cidade. Depois de uma semana, foi expulso. "Ninguém quer por perto uma pessoa pobre e fedendo, não é?", disse o pastor.

Enquanto José Carlos saía do local para onde foi dar cabo de sua vida, já depois de descer da torre - somente após a promessa de que teria ajuda para voltar para casa - curiosos gritavam contra ele. "É um marginal. Tem que ser preso", "Ele precisa de uma surra", "O que ele quer é roubar", dizia quem assistia ao rapaz sair. Cercado por pessoas, ele precisou ser escoltado por policiais para chegar à viatura.

Transtornado, com o olhar fixo, ele repetia o tempo inteiro para PMs e bombeiros: "Não quero ir para hospital. Quero ir para casa. Vocês vão me ajudar? Preciso ir para casa". Ele estava descalço e carregava apenas um saco plástico com panos velhos. Tinha a aparência de quem havia se perdido há muito, em todos os sentidos. Unhas, cabelos e barba enormes. José Carlos foi algemado, colocado em viatura e levado para a 6ª Seccional da Polícia Civil.

Depois de verificar que José Carlos não tinha passagem pela polícia, os PMs o liberaram. Sem ter onde ficar, seria levado ao hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano, a popular Tamarineira, para onde já havia ido por três vezes. "Para lá eu não quero ir, não. Para o Ulysses não", repetia o rapaz. E pela segunda vez, a ajuda do pastor foi essencial para José Carlos.

"Checamos todas as informações que ele nos deu sobre sua família e estava tudo certo. Resolvi ajudá-lo", conta José Alencar. Foi registrado um Boletim de Ocorrência para justificar a ausência de documentos do rapaz. E depois de oferecer abrigo, banho e roupas a José Carlos, o pastor o levou para a rodoviária onde comprou para ele a passagem para a Bahia. "Depois da barba feita, cabelo cortado, roupas trocadas e banho tomado, ele ficou até bonito, o rapaz". José Carlos voltou para casa no ônibus das 18h45. "Acredito que agora ele terá uma nova chance de ter uma vida digna", concluiu o pastor José Alencar.

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Matéria não-publicada. - Jun '09

25 de Junho de 2009

empréstimo.

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

O Enterrado Vivo | Drummond, velho amigo de muitas guerras.

20 de Junho de 2009

personagens III

Havia mais de 30 minutos que tinham começado aquela conversa.

Odiava aquelas ironias. Mais do que ninguém, ele sabia que estava certa. Mas, aquele olhar inquisidor, cheio de si, que ela vestia como uma armadura sempre que estava com razão, era insuportável.

"Estou cansado. Não quero discutir mais nada. Vou para a cama".

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Odiava aquele egoísmo. Mais do que ninguém, ela sabia o quanto suas ironias o irritavam. Mas, a voz displicente com que ele lhe negava a razão, aquele orgulho todo, eram insuportáveis.

"Cansei de tudo. Não aguento mais. Vou embora".

10 de Junho de 2009

Tira-gosto

Entre um copo e outro...
Entre um cigarro e outro...

Garçom! Um poema, por favor!

6 de Junho de 2009

Sopro... (da série Mimos e Besteirinhas)

Há algum tempo que estava cabisbaixa, monocromática, monocórdica...

Ele pegou-a pela mão, afastou-lhe os cabelos e soprou-lhe o rosto.

"Que foi isso?"

"Brisa..."

"Como assim?!"

"A brisa da juventude."

Então, mostrou-lhe o mundo e disse-lhe que podia ser seu.

"Mas procura sempre a brisa, para sentir as borboletas."

Ela sorriu e foi embora. Mas a brisa lhe sopra o rosto com frequência desde então.

4 de Maio de 2009

Um quintal mágico. Ou entre baobás, mangas e abelhas.

Ontem eu conheci Seu Renato. Dentista, 74 anos, casado, filhos e quatro netos. Talvez ele passasse batido como passam muitos outros não fosse uma coisa: Seu Renato foi responsável pelo plantio de pelo menos quatro baobás no Recife e mais um monte pelo Brasil afora. “Já mandei muda pro interior, pra São Paulo, Alagoas, Maranhão, pra todo canto”, diz. A história começou quando, caminhando em Porto de Galinhas (“Sempre gostei muito de andar. Andava muito. Hoje não tenho mais idade”) subiu uma ladeira e deu de cara com um baobá centenário. No chão, no pé da árvore, um monte de frutos caídos. “Pareciam de veludo. Peguei uns e levei pra plantar”.

Numa banheira velha colocou terra e as sementes. Os bichos começaram a crescer, os colocou em latas. Não teve jeito. “Não sabia o que fazer. Doei as mudas pra prefeitura”. E assim, surgiu um baobá no bairro da Encruzilhada, na Faculdade de Direito, na Praça Chora Menino, no Parque 13 de Maio (“Mas esse eu nem sei se ainda tá vivo”)... Isso faz mais de 20 anos. Os dois primeiros foram tombados pela administração municipal há alguns anos e hoje são considerados “especiais”, imunes a corte, derrubada e o que vier pela frente.

Perguntei se, como tantos outros – eu inclusa, ele havia sido tomado de amores e fascínio pela árvore tão mística e exótica. “Não exatamente. Dou mais valor ao que é da terra: Ipê, Pau-Brasil. Mas sou apaixonado por plantas de qualquer espécie e é uma satisfação grande ver essas árvores crescendo”. Morador da Encruzilhada, ele vê uma de suas crias quase todos os dias quando vai ao mercado do bairro. O garotão, com seus 20 e poucos anos e bem uns 10 metros de altura vive no alto de um canteiro circular, no meio de um trevo, atrás do mercado, pra quem quiser passar e ver. “Mas eu só descobri depois que tinham plantado ele ali”.

Seu Renato me recebeu em seu consultório, na Encruzilhada. Vestido com camisa de botão laranja, calça cáqui e alpercata. Com o passo lento e arrastadinho, me levou no quintal. Um paraíso. Quando cheguei à porta dos fundos, estanquei. Um verdadeiro Éden no meio da cidade. Mangueiras, coqueiros, sapotizeiros... “Adoro as frutíferas”. Bem se vê, Seu Renato. Maracujá, morango, banana, abacaxi, de tudo! Horta? Também. E lá trás, depois dos fundos, um portãozinho de ferro. A casa dele, na rua de trás, tem o quintal pro consultório. “Quis juntar os dois quintais”.
Hoje, o passatempo de Seu Renato é criar abelhas. No quintal mágico, várias estantes de colmeias. “Nenhuma tem ferrão”, disse, pra me tranqüilizar. Mas por que abelhas, Seu Renato? “Meu pai criava abelhas”. Mantém contato com especialistas do país inteiro por causa desse hobby.

Andando pelo caminhozinho de cimento, atravessando as folhagens, Seu Renato me mostrou com orgulho os seus domínios. Me deu uma flor amarela. “Flor de mel. O cheiro é o mesmo”. E era. “Um quintal desses sempre foi o meu sonho”, eu disse a ele. Um sorriso. A esposa quer mudar de casa, pra um lugar menor, sem quintal. Mas ele, homem de Timbaúba, do interior, que chegou ao Recife rapazinho, nos anos 50, não esquece a infância no meio do mato. Morou em sítio, entre as plantas. “Ela não entende. É filha do meio urbano”.

Uma vez por semana, um jardineiro vai ao quintal de Seu Renato pra ajudá-lo. “Não dou conta de tudo sozinho. Mas quando chegamos numa certa idade, não dá pra ficar sem fazer nada. Parado. Tem que se distrair. Gosto muito de ler, mas não o tempo inteiro”. Dos filhos, que não perguntei quantos eram, um seguiu os passos do pai e também virou dentista. O amor pelas plantas, contudo, não atravessou as gerações. “Meu filho nem olha pra elas”.

Aos netos, Seu Renato nunca mostrou as suas crias baobás. “Como não, Seu Renato? Eles têm que ver e saber que o avô deles é responsável por essas árvores lindas e que todo mundo ama”, pensei. “Acho que eles nem se interessam”, disse ele. Mas, depois de uma pausa, a promessa: “Um dia, vou levá-los pra tirar uma foto comigo e a árvore”.

Chegou o momento de ir embora. Menos de uma hora pra conversar e tantas coisas fascinantes pra ouvir... “Foi um prazer. Apareça sempre que quiser”, ele me disse, abrindo o portão. O prazer foi meu, Seu Renato. Todo meu.

*Aos baobás, a Seu Renato e o quintal mágico e a Saint-Exupéry (que me apresentou essa árvore magnífica) por terem sacudido meu espírito.

12 de Março de 2009

Dos excertos e do amor

Rompo o silêncio deste blog, não para colocar algo original, mas para compartilhar com vocês, meus queridos 8 leitores, uma passagem que eu considero maravilhosa. Clarice Lispector quando trabalhou como repórter, várias vezes entrevistou personalidades, entre elas Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, e assim por diante. Esses bate-papos entre gênios foi publicado em um livro há um tempo. Então...

Uma das entrevistas que mais me chamou a atenção foi a de Tom Jobim. Mais do que uma ping-pong - como são conhecidas, no jargão jornalístico, essas entrevistas com pergunta e resposta - esta, em específico, foi um debate filosófico. Mas vamos ao trecho que quero lhes mostrar. Li isto a primeira vez em outubro do ano passado. Eis que dia desses, o excerto me voltou a mente. Fui folhear o livro em busca do próprio. Encontrei-o sublinhado de caneta azul. Lembro que à época em que li, o que Tom falou a Clarice me foi de uma importância brutal. Compartilho:

"Clarice: ...E o que é o amor?"
"Tom: ...Quanto ao que é amor, amor é se dar, se dar e se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu - muita gente pensa que está se dando e não está dando nada - mas, de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio se detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira."

Quando li isso a primeira vez tive a sensação de "já sabia". Foi incrível, o mestre Tom sistematizou e sintetizou toda minha filosofia de vida.

Até breve, meus caros. Com algo original, prometo. =]